terça-feira, 12 de junho de 2018

Muito lindo e interessante



Aeronave autônoma construída no Brasil vai monitorar reservas ambientais na Amazônia


Noamay no ar: quatro motores elétricos com hélices que podem girar em 360º de forma independente

Imagem: Samuel Bueno/CTI




Ao voar lentamente e a baixas altitudes sobre a floresta na região de Mamirauá, no estado do Amazonas, o dirigível Noamay deverá localizar e captar sinais de rádio emitidos por colares instalados em macacos e onças. Esse tipo de aeronave poderá também obter, por meio de sensores, dados sobre o ar e o solo. O dirigível não tripulado, que mede 11 metros (m) de comprimento e 2,50 m de diâmetro na parte mais larga, foi projetado para voar de forma autônoma com um trajeto predefinido ou teleguiado por um piloto em terra. “Fizemos o primeiro voo no modo teleguiado em 3 de março, a partir da pista de pouso da cidade de Balsa Nova, no Paraná”, conta o engenheiro eletrônico Samuel Siqueira Bueno, pesquisador do Centro de Tecnologia da Informação (CTI) Renato Archer – entidade do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC), em Campinas, que liderou o projeto Droni – Dirigível Robótico de Concepção Inovadora.

O Noamay – “cuidar e proteger” na língua indígena yanomami – entrará em operação no segundo semestre deste ano no Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM) – organização social ligada ao MCTIC –, que também participou do projeto Droni. O instituto atua nas reservas ecológicas de Mamirauá e Amanã, com um total de 3,4 milhões de hectares. O projeto Droni foi financiado pelo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CNPq) entre 2014 e 2017.

O dirigível traz uma inovação importante, segundo Bueno: quatro motores elétricos com hélices instalados de forma que possam girar em 360° e funcionar cada um de modo independente, permitindo subir e pousar na vertical, pairar no ar e voar fazendo manobras. “Esse novo sistema, que chamamos de vetorização multidimensional, permite controlar a aeronave com mais precisão nos seus três eixos, o que facilita o voo pairado mesmo com a ocorrência de ventos laterais. Inédito, o sistema facilita controlar o dirigível em baixas velocidades e por isso estamos preparando patentes para serem depositadas no Brasil e no exterior”, explica o engenheiro aeronáutico Christian Amaral, sócio da Omega AeroSystems, empresa de Campo Largo (PR) que projetou e construiu o dirigível e também fez parte do projeto Droni. Amaral explica que os dirigíveis são mais úteis em algumas situações do que os drones porque podem voar por mais tempo, levando uma carga muito maior e fazer voos pairados com maior estabilidade. As baterias dos drones duram poucas dezenas de minutos.

“Por enquanto, o dirigível tem uma autonomia de voo de uma hora, mas no futuro será possível mantê-lo no ar por mais tempo, sustentado pelo gás hélio e por motores elétricos energizados por baterias”, explica Bueno. Em relação aos equipamentos de sensoriamento a serem embarcados na aeronave, ele acrescenta: “Poderemos instalar antena e receptor para localizar e acompanhar animais que portam colar transmissor, câmeras em diferentes faixas de espectro, um laser Lidar [sigla de detecção de luz e medida de distância] para mapear o solo e tentar localizar ruínas de presença humana antiga ou outros sensores para saber a composição do ar sobre a floresta.”

As baterias recarregáveis do Noamay são de polímeros de lítio (LiPo), de alta capacidade. Sem gás hélio, apenas com os equipamentos para voar, o dirigível pesa aproximadamente 38 quilogramas (kg), com capacidade para mais 6 kg de carga. Vazio e dobrado, o envelope cabe dentro de uma mala grande de viagem.

Plataforma multiuso


Outro desafio dos pesquisadores é terminar o desenvolvimento do sistema de controle autônomo do Noamay. “Concluímos em 2002 o desenvolvimento de um sistema de voo autônomo para nosso primeiro dirigível, comprado no exterior, em 1998”, conta Bueno, que coordenou o projeto Aurora, sigla em inglês para Dirigível Robótico Autônomo Não Tripulado para Monitoração Remota (ver Pesquisa FAPESP nº 84). A aeronave era controlada pelo computador e sensores embarcados. “Com esse sistema, o dirigível realizava voo de cruzeiro autônomo, mas as operações de decolagem, aterrissagem e voo pairado eram controladas pelo piloto em terra”, diz.

O estabelecimento de um controle geral, que inclua decolar, pairar sobre um ponto escolhido, fazer aterrissagem e até decidir sozinho a rota e a missão de acordo com os dados captados pelo próprio dirigível, ainda necessita de metodologias que estão sendo desenvolvidas de forma simulada, para depois serem testadas. “Metodologias de piloto automático para dirigíveis que cumpram todas essas fases de voo inexistem no mundo. Por isso, temos vários estudantes de pós-graduação envolvidos nesses estudos”, conta o pesquisador. Além do CTI, da Omega e do IDSM, também participam do projeto as universidades Federal da Amazônia (Ufam), Estadual de Campinas (Unicamp), Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e Instituto Superior Técnico de Lisboa, de Portugal. Essa colaboração multi-institucional dá prosseguimento às pesquisas e aplicações do Noamay no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Sistemas Autônomos Cooperativos (InSAC).

O engenheiro eletricista José Reginaldo Hughes Carvalho, professor no Instituto de Computação da Ufam, diz que o Noamay poderá se transformar em uma plataforma multiuso, tanto como alternativa mais segura e barata aos voos tripulados (usados para rastreamento de animais e coleta de informações ambientais) quanto para aquisição de dados, oferecendo uma cobertura maior que os sensores fixos. “Com o diferencial de ser silencioso e, ao mesmo tempo, flexível, sendo capaz de pairar sobre um ponto de interesse e prosseguir para o próximo”, acrescenta.

O dirigível precisa de 40 metros cúbicos (m3) de hélio. O gás pode ser comprado, acondicionado em cilindros, em Tefé, cidade-sede do Instituto Mamirauá. O preço médio é R$ 120,00 o m3, o que significa R$ 4.800,00 para encher o dirigível. “Estamos projetando um reservatório de material sintético para acondicionar o gás e não o perder, caso seja necessário esvaziar o envelope do dirigível”, explica Amaral, da Omega. A empresa pretende, no futuro, produzir a aeronave em escala. “O mercado mundial de dirigíveis, dos remotamente pilotados aos autônomos, para aplicações ambientais e de sensoriamento, estando ainda em processo de formação, apresenta um grande potencial de expansão a médio e longo prazos.”

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Zika, vírus


Vírus da doença é testado como ferramenta para tratar tumores agressivos do sistema nervoso central






Quando o vírus zika pegou o Brasil de surpresa, no final de 2015, provavelmente já circulara silencioso pelo país por pouco mais de dois anos. Razoavelmente silencioso, porque apesar de causar alguma febre, dor no corpo e nas articulações, manchas no corpo, entre outros sintomas da doença que escapava ao diagnóstico pela semelhança com dengue e chikungunya, nada se compara ao dramático nascimento de crianças com problemas no desenvolvimento do cérebro – a microcefalia fetal. Agora surgem formas mais rápidas, confiáveis e práticas de diagnosticar o vírus, permitindo antecipar tratamento e medidas de saúde pública. E quanto à sua capacidade neurodestruidora, que tal usá-la em benefício próprio?

É a ideia do grupo da geneticista Mayana Zatz, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e coordenadora do Centro de Pesquisas do Genoma Humano e Células-Tronco (Cegh-CEL), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP. Em artigo publicado no final de abril na revista Cancer Research, os pesquisadores mostraram, em camundongos, que o vírus zika pode ser usado como ferramenta no tratamento de tumores humanos agressivos do sistema nervoso central. É a primeira vez que isso foi feito em um modelo vivo.

Mayana coordenou a investigação ao lado de Oswaldo Keith Okamoto, também do IB-USP e do Cegh-CEL. “Nossos estudos e de outros grupos mostraram que o vírus zika causa microcefalia porque infecta e destrói as células-tronco neurais do feto, impedindo que novos neurônios sejam formados. Foi então que tivemos a ideia de investigar se também atacaria as células-tronco tumorais do sistema nervoso central”, diz Okamoto.

Os experimentos começaram in vitro com três linhagens tumorais humanas que causam câncer no sistema nervoso central. Os pesquisadores acrescentaram quantidades crescentes do vírus às células tumorais em cultura e acompanharam por meio de microscopia de imunofluorescência. “Observamos que pequenas quantidades do zika eram suficientes para infectar as células de tumores do sistema nervoso central. As de próstata chegaram a ser infectadas, mas em uma proporção muito menor”, ele relata. Ao comparar o efeito em células-tronco neurais sadias – obtidas a partir de células-tronco pluripotentes induzidas (IPS, células adultas reprogramadas em laboratório para se comportarem como células-tronco) – e tumorais, verificaram que o vírus é mais eficiente em destruir estas últimas. “Também expusemos neurônios maduros ao vírus e vimos que eles não foram infectados ou destruídos pelo patógeno”, acrescenta Okamoto. “Essa é uma ótima notícia, uma vez que nosso objetivo é destruir especificamente células tumorais”, completa Mayana.

Passando aos ensaios com camundongos portadores de tumores humanos no encéfalo, uma parte dos animais recebeu uma injeção com pequena dose de zika e, no grupo tratado, houve uma redução significativa do volume tumoral. O grupo pretende avançar para ensaios clínicos. “A ideia seria começar com dois ou três pacientes que não respondem aos tratamentos convencionais e, se a estratégia funcionar, estender para um grupo maior”, propõe Mayana. O grupo submeteu uma patente com o protocolo terapêutico adotado em roedores.

Aprendizado de máquina
O vírus zika também foi o ponto de partida para desenvolver uma plataforma capaz de diagnosticar diversas doenças por meio de marcadores metabólicos no sangue de pacientes. “Nesse caso, a precisão diagnóstica ultrapassa 95%”, afirma o farmacologista Rodrigo Ramos Catharino, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Uma das grandes vantagens é que o método não perde a sensibilidade mesmo se o vírus sofrer mutações.”

O método alia a tecnologia de espectrometria de massas, que permite identificar dezenas de milhares de moléculas presentes no soro sanguíneo, com um algoritmo de inteligência artificial capaz de encontrar padrões associados a enfermidades – tanto de origem viral como bacteriana, fúngica e até mesmo genética. Os resultados, parte do doutorado do farmacologista Carlos Melo e publicados em abril na revista Frontiers in Bioengineering and Biotechnology, revelam a capacidade de detectar o vírus mesmo 30 dias após o início da infecção. “Nenhum kit para diagnóstico disponível tem sensibilidade para detectar a infecção pelo zika após o término da fase aguda. Nosso método poderia ser útil, por exemplo, para analisar bolsas de sangue para transfusão”, comenta Catharino.

Em campo
Enquanto o vírus zika pode ser reconhecido e até útil em laboratório, no mundo externo ele ainda é difícil de ser detectado com a agilidade necessária para se minimizar os efeitos maléficos.

Resultados promissores para uso em campo vêm do grupo da geneticista iraniana-americana Pardis Sabeti, do Instituto Broad, nos Estados Unidos, conforme publicado em abril na revista Science. A virologista Catherine Freije, doutoranda na Universidade Harvard, e o biólogo de sistemas Cameron Myhr-vold, em estágio de pós-doutorado no Broad, estiveram à frente do trabalho, que aprimorou a plataforma de diagnóstico Sherlock (sigla para Desbloqueio Enzimático Específico de Alta Sensibilidade), desenvolvida por outro grupo do mesmo instituto. O método modificado foi batizado como Hudson (sigla de Aquecendo Amostras Diagnósticas não Extraídas para Obliterar Nucleases) e permite detectar RNA e DNA por meio de uma reação enzimática que pode ser feita até em tiras de papel, longe do laboratório. Isso foi possível graças a um tratamento químico e térmico que inativa enzimas que, de outra forma, degradariam os alvos genéticos.

O conjunto Sherlock-Hudson reconhece vírus na amostra – sangue, saliva ou urina – graças ao sistema Crispr-Cas13, capaz de encontrar sequências no genoma viral de maneira muito específica, encaixando apenas se houver uma concordância alta entre o alvo e o modelo transportado pelo sistema. “Esse sistema é único na família Crispr porque, quando uma sequência é reconhecida, a enzima Cas13 consegue romper uma sequência adicional de RNA”, a dupla de autores explicou em e-mail assinado conjuntamente. “Isso é particularmente útil no contexto do diagnóstico porque podemos introduzir moléculas-repórter que criam uma marca fluorescente ou visual quando quebradas.”

O método detectou, em menos de duas horas, os vírus causadores da febre zika e da dengue em amostras de pacientes brasileiros coletadas entre 2015 e 2016 no âmbito de um projeto coordenado pelo virologista Maurício Lacerda Nogueira, da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp). “Dengue e zika são vírus muito parecidos, que frequentemente apresentam resultados cruzados nos testes. Essa plataforma Sherlock diagnosticou com 100% de acerto mesmo as amostras positivas para mais de um vírus”, afirma Nogueira.

Ele diz que esse tipo de tecnologia permite adaptar o teste para se adequar às necessidades. “Caso surja uma epidemia com um vírus novo, é possível rapidamente desenvolver o kit com os reagentes e levá-lo ao local. Porém, ainda estamos a alguns anos de uma aplicação comercial.” O reconhecimento detalhado de sequências genéticas pode permitir discriminar mutações específicas, como em proteínas associadas ao desenvolvimento de microcefalia fetal, ou rastrear a origem geográfica da linhagem presente em um paciente. O método está em fase de aprimoramento e pode ser complementar a outros já desenvolvidos, como o sistema de sequenciamento do projeto ZiBRA (ver Pesquisa FAPESP nº 256).
Com colaboração de Maria Guimarães

Projetos
1. CEGH-CEL – Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco (nº 13/08028-1); Modalidade Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisadora responsável Mayana Zatz (USP); Investimento R$27.308.809,64 (para todo o projeto).
2. Estudo epidemiológico da dengue (sorotipos 1 a 4) em coorte prospectiva de São José do Rio Preto, São Paulo, Brasil, durante 2014 a 2018 (nº 13/21719-3); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Maurício Lacerda Nogueira (Famerp); Investimento R$ 2.893.092,30.
3. Metabolômica e lipidômica do Zika vírus, do mosquito ao paciente (nº 16/17066-2); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Rodrigo Ramos Catharino (Unicamp); Bolsista Carlos
Fernando Odir Rodrigues Melo InvestimentoR$ 108.420,39.
Artigos científicos
KAID, C. et al. Zika virus selectively kills aggressive human embryonal CNS tumor cells in vitro and in vivoCancer Research. on-line 26 abr. 2018.
MYHRVOLD, C. et alField-deployable viral diagnostics using CRISPR-Cas13Science. v. 360, n. 6387, p. 444-8. 27 abr. 2018.
MELO, C. F. O. R. et alA machine learning application based in random forest for integrating mass spectrometry-based metabolomic data: A simple screening method for patients with zika vírusFrontiers in Bioengineering and Biotechnology. on-line. 11 abr. 2018.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

O meio ambiente social


Livro conta história da autoafirmação cultural de jovens das periferias
14 de maio de 2018
José Tadeu Arantes| Agência FAPESP – Se fosse necessária uma prova do potencial criativo dos jovens das áreas mais carentes das periferias, a experiência relatada no livro O que o rap diz e a escola contradiz poderia servir de demonstração. Escrito por Monica Guimaraes Teixeira do Amaral, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), e publicado com apoio da FAPESP, o livro conta a história de uma pesquisa realizada com estudantes de 13 a 16 anos na Escola Municipal de Ensino Fundamental José de Alcântara Machado Filho, situada perto da antiga favela do Real Parque, hoje urbanizada, na cidade de São Paulo.




“Tudo que esses jovens precisam é de uma oportunidade. E essa oportunidade em geral lhes é negada pela orientação autoritária que predomina nas escolas públicas”, disse Amaral à Agência FAPESP.



Os relatos e análises apresentados no livro, que foram objetos da tese de livre-docência da educadora, começaram a ser recolhidos em 2006, quando Amaral, à frente de um grupo de sete pesquisadores da FEUSP, chegou ao Real Parque.

“Fomos chamados por jovens que trabalhavam na região, como estagiárias de uma organização não governamental que concedia bolsas de estudo para a formação de professores. Pressionadas de um lado pelas orientações da ONG e das empresas financiadoras e, de outro, pelas necessidades da comunidade que extrapolavam tais orientações, essas jovens se sentiam angustiadas. Elas pediram que entrássemos na escola, onde os alunos se encontravam em total abandono e por onde mais de uma geração havia passado sem conseguir obter formação alguma. Entramos na escola e nela permanecemos durante três anos, organizando atividades com os estudantes e grupos de estudo com os professores, fazendo plantões nos três turnos, intervindo em classe junto com os professores, em um sistema de aulas compartilhadas”, disse Amaral.

Um dos resultados concretos dessa atividade foi a elaboração de um currículo interdisciplinar calcado na história daquela população. E a construção de um modelo de atuação, que, agora, está sendo estendido a outras instituições de ensino.

“Toda essa pesquisa forneceu os fundamentos para outros projetos que envolvem a docência compartilhada entre professores e artistas populares, que desenvolvemos atualmente em duas escolas das periferias de São Paulo: a Roberto Mange, na Região Oeste, e a Saturnino Pereira, na Cidade Tiradentes. Culturas ancestrais, como o maculelê, e culturas contemporâneas, como o hip-hop, são temas desse trabalho em sala de aula”, disse Amaral.

Os sete pesquisadores da FEUSP distribuíram-se em várias frentes de atividade: um viria a trabalhar com a questão indígena, outro com o hip-hop, outra com a literatura de cordel, que resultou inclusive em um livro premiado (A rima na escola, o verso na história, de Maíra Soares Ferreira).

“Quando chegamos, fizemos um levantamento junto aos jovens, perguntando o que eles esperavam da escola. Ao mesmo tempo, entrevistamos professores e coordenadores, para saber o que estava acontecendo. De um lado, havia professores que apresentaram projetos interessantes, mas que se sentiam totalmente desanimados, pois os projetos sofriam o boicote sistemático da direção da escola. De outro lado, havia alunos que tinham grandes expectativas em relação à escola, mas que lá não encontravam nada, exceto o local onde podiam se encontrar com os colegas”, disse Amaral.

No Dia do Índio, os estudantes retrataram diversas etnias existentes no Brasil, menos os Pankararu. Os pesquisadores consideraram aquilo muito intrigante, uma vez que a comunidade Pankararu, constituída pela miscigenação de indígenas, negros e sertanejos brancos, foi a primeira a se instalar nas favelas vizinhas do Real Parque e do Jardim Panorama. Essa população chegou ao recém-implantado bairro do Morumbi na década de 1950, com a leva de trabalhadores nordestinos contratados para construir o Estádio do Morumbi, o Palácio dos Bandeirantes e outras obras de grande porte.

“Buscando conhecer o motivo dessa omissão, descobrimos que os alunos tinham vergonha de sua origem. Quando perguntamos em classe se havia alguém que pertencia à comunidade Pankararu, todos se calaram. Depois de muitos titubeios, uma jovem disse: ‘Eu conheço os Pankararu’. ‘De que maneira?’, interrogamos. ‘Meu pai é um deles’, ela respondeu. E acrescentou: ‘Eles comem com a mão’. Era um discurso totalmente cindido”, relatou Amaral.

Os pesquisadores estudaram a história dos Pankararu, que verificaram ser de “sofrimento e tenacidade”: o aldeamento forçado; a miscigenação de várias etnias indígenas, de negros e de brancos, que se reuniram em torno do nome “Pankararu”, para ter alguma identidade; as migrações para o Sudeste, provocadas pela pobreza; a construção das hidrelétricas de Paulo Afonso e Itaparica, no rio São Francisco, que cortou a relação do povo com sua ancestralidade.

Por outro lado, houve a manutenção de elementos simbólicos e rituais, que possibilitaram que os Pankararu preservassem sua “indianeidade” no contexto da diáspora. Informações mais detalhadas sobre os Pankararu pode ser acessadas nos endereços https://pib.socioambiental.org/pt/povo/pankararu e http://www.indiosonline.net/?s=Pankararu.

“Toda essa saga foi resgatada durante a pesquisa. Hoje muitos desses jovens Pankararu são rappers, orgulhosos de sua ancestralidade. E tive uma prova de sucesso quando, voltando à área anos mais tarde, um menino loiro, que não tinha nada de indígena, veio me perguntar se estava tocando bem o chocalho. Eu respondi que sim. Ao que ele afirmou: ‘Então, agora, eu posso ser um Pankararu!’. A relação havia se invertido. Se, antes, ser Pankararu era motivo de vergonha, depois, passou a ser uma aspiração, mesmo para quem não era”, disse Amaral.

Mas essa transformação não ocorreu por um passe de mágica. Foi necessário superar grandes desafios. “Quando chegamos à escola, esses estudantes se encontravam totalmente abandonados. Pareciam crianças sem referências. Um falando sozinho, outro repetindo slogans da TV, outra fazendo lições de professores inexistentes, e um grupo fazendo bagunça no fundo da sala. Havia dias com seis classes sem aula, por falta de professores. Então, eu descobri que, no meio da bagunça do fundão, tinha batuque e cantoria. E havia um professor bom de rimas, que começou a desafiar os meninos. Com esse estímulo, eles passaram a construir um rap, que ficou famoso e motivou até uma reportagem de televisão”, disse.

Aqui vai um trecho da letra desse rap (citado no livro), com a ortografia, a sintaxe e a pontuação adotadas pelos autores:
“Às vezes para vencer na vida é preciso ser agressivo
Somos grupo Elementos pensamentos positivo
Nosso governo é sinistro e só quer ganhar dinheiro
Aqui os mano não se ilude aqui os mano é brasileiro
Por isso eu te falo com muita convicção
O crime é para quem é e não serve para mim não
É ‘inadmirável’uns truta da quebrada
Fazendo 157 ou seja assalto à mão armada
A falta de emprego e ‘compreenção’
Transporta o ‘piveti’ pra vida de ladrão
A falta de emprego e ‘compreenção’
Mata os sonho da pessoa e joga dentro do caixão”

O potencial crítico e criativo dos alunos estava escondido por trás da apatia e da bagunça. Era preciso que fosse reconhecido e acolhido. “Refletindo sobre tudo isso, entendemos que os rumos daquela escola precisavam ser mudados. Em primeiro lugar, era preciso ter professores. Depois, era preciso ter um currículo culturalmente relevante. Indo adiante, era preciso construir um projeto interdisciplinar, fazendo com que as diversas disciplinas (história, geografia, português, ciências, informática) reconhecessem os elementos culturais que aqueles jovens estavam apresentando, articulassem tais elementos com suas histórias de vida, para depois articulá-los também com referências mais amplas”, argumentou a educadora.

Os professores começaram a se reunir e a montar um projeto interdisciplinar, envolvendo rap, literatura de cordel, repente, embolada, a história do sertão, a história do êxodo de indígenas e nordestinos rumo ao Sul, a história da diáspora maior, africana, através do Atlântico. Era um resgate das origens, mas que não se detinha nelas, e seguia adiante.

“Daí veio a frase que daria título ao livro: ‘O que o rap diz e a escola contradiz’. Porque o rap fala da situação do jovem na periferia. Fala da discriminação vivida por eles, principalmente em bairros de muito contraste social como o Morumbi, onde os jovens pobres são proibidos de circular livremente. Se vão a uma grande padaria, se vão a uma rua de condomínios luxuosos, eles são expulsos. Têm que ficar restritos ao pedaço em que moram, e que não dispõe de nenhum espaço de socialização, de convivência, além da escola”, disse Amaral.

“Infelizmente – e por isso eu digo que a escola contradiz –, existe uma estrutura nas diretorias regionais de ensino que cerceia a experimentação e a criatividade. Fica tudo na dependência de que haja um bom diretor e bons coordenadores, suficientemente corajosos e persistentes para bancar essa abertura”, prosseguiu.

A imagem da capa do livro, um graffiti criado pelos artistas de rua Val OPNI e Toddy OPNI, resume, imageticamente, a história da pesquisa. A figura central é a de uma jovem, meio menina, meio mulher, cujo fenótipo combina elementos africanos e indígenas, e cujo olhar expressa um misto de angústia e esperança. Com as mãos, essa jovem faz uma magia e, como um mago que tira coelhos da cartola, materializa no ar os elementos distintivos do hip-hop: o spray, do graffiti; os livros, associados à escola e ao conhecimento; o microfone, do rapper; o tênis e o CD, da dança break. No fundo, a imagem mostra a construção do Estádio do Morumbi, feita por trabalhadores nordestinos na década de 1950, dentre eles, os afro-indígenas da etnia Pankararu. No fundo também, na outra extremidade do quadro, os incêndios criminosos das favelas da região, que se repetiram até que, liderados por algumas jovens que haviam participado da pesquisa, os moradores conseguiram registrar suas posses por usucapião e foi feita a reurbanização da área.

O que o rap diz e a escola contradiz: um estudo sobre a arte de rua e a formação da juventude na periferia de São Paulo
Autora: Mônica do Amaral - Editora: Alameda - Ano: 2016/2017 - Páginas: 258 - Preço: R$ 46